Com o
emprego dos cães, esse
trabalho foi aprimorado.
A grande valia é que
eles têm uma capacidade
muito superior a do
homem no que se refere
ao olfato e à audição.
Apresentam uma
sensibilidade auditiva
16 vezes maior que a dos
seres humanos e,
enquanto o homem possui
5 milhões de células na
cavidade nasal, os cães
são dotados de 250
milhões. Por isso,
facilmente identificam
suor, odor de sangue,
adrenalina, etc.
As
raças de cães que
apresentam maior
capacidade de faro são
Labrador ou Springuer
Spaniel, cuja composição
genética facilita a
adap-tação a qualquer
tipo de treinamento.
Além de ser um cão
adaptável a qualquer
terreno e ter um
histórico de caçador.
A
exploração desses
atributos não é recente.
Durante a Segunda Grande
Guerra, o exército
alemão valeu-se de cães
para a vigilância de
bases nazistas. Eles
alertavam os sentinelas
sobre qualquer
aproximação de tropas
inimigas.
O 1º
Grupamento de Bombeiros
de São Paulo, localizado
no bairro do Ipiranga,
vem obtendo excelentes
resultados nas
ocorrências de busca e
salvamento, por meio do
Ecos (Emprego de Cães em
Operações de
Salvamento), que, além
de garantir economia de
tempo durante as
ocorrências, pode salvar
muitas vidas.O Ecos
conta, inclusive, com
viatura especial para
transportar os cães do
batalhão até o local da
ocorrência. “É
impressionante a
disposição dos cães para
o trabalho. Basta
encostarmos a viatura em
frente do canil aberto
que eles ficam
eufóricos. Logo pulam
para o seu interior e
esperam a partida do
veículo”, complementa o
cabo Lauro Francisco
Silva, oficial
responsável pelo canil.
A
utilização dos cães vai
muito além do que se
previa a princípio. “O
canil nos apóia em
ocorrências de
salvamento de diversas
naturezas,
principalmente quando
não temos possibilidade
de visualizar a vítima e
todos os recursos já
foram esgotados. Além da
indicação de locais em
que haja vítimas
soterradas, os nossos
cães são treinados para
atuar em casos de
ocultação de cadáver e
em outros crimes.”
Para
se ter noção da
importância da ampliação
do emprego de cães nas
buscas e salvamentos, só
no Estado de São Paulo
ocorrem em média, de
acordo com matéria
publicada no site da
Radiobrás,
www.radiobras.gov.br,
cerca de mil
soterramentos, sendo 300
casos na capital
paulista. A maioria dos
acidentes se refere a
desabamentos na área da
construção civil. São
ocorrências que vão
desde deslizes por
infiltrações em período
de chuva e por
acomodações de solo, até
desmoronamento em
grandes edificações, por
problemas nas estruturas
ou no planejamento da
obra.
Esperto, curioso
e brincalhão, o Labrador
é o cão ideal
A unidade
Ipiranga conta
atualmente com nove
exemplares, todos da
raça Labrador. Destes,
cinco estão totalmente
preparados e o restante,
em fase de adaptação. “É
preciso lembrar que não
é qualquer Labrador que
está apto a fazer parte
da corporação. O
exemplar tem de
apresentar
características
específicas, como
iniciativa e coragem,
por exemplo”, acrescenta
cabo Lauro.
O
oficial enfatiza que a
raça é conhecida por ser
brincalhona, o que
facilita muito o
treinamento. “Nossa base
de adestramento é a
recompensa e essa ação
se dá por meio de
brincadeiras. Logo que
os filhotes nascem,
escolhemos os que se
mostram mais espertos e
curiosos. Após 60 dias,
damos início aos
treinamentos.”
As ninhadas podem ser
provenientes de doações
ou advindas do Canil
Central do Corpo de
Bombeiros de São Paulo,
localizado na Serra da
Cantareira, zona norte
da capital paulista.
Segundo o cabo Lauro da
Silva, metade do efetivo
vem de doações e o
restante, do canil.
As fêmeas
dominam o canil da
corporação
As fêmeas são a
maioria no canil do
Corpo de Bombeiros. Isso
porque, comprovadamente,
as cadelas possuem maior
poder de concentração,
responsabilidade e não
têm o instinto de
demarcar territórios, a
exemplo dos machos, que
facilmente se dispersam
com esse intuito ou em
razão de ficar atraídos
por cadelas no cio.
“O exemplar macho não é
inferior, mas os
resultados obtidos com
as fêmeas são melhores.
Se em um local de
ocorrência tiver uma
cadela no cio e
estivermos operando com
cães machos, o trabalho
certamente será
comprometido. As fêmeas,
por exemplo, só param
para urinar quando
realmente estão com
vontade, diferentemente
dos machos, que urinam
pelo simples fato de
outro cão ter urinado
ali também”, complementa
o cabo Lauro.
O treinamento é
árduo, porém prazeroso
O treinamento
básico, assim como a
catalogação e o
atendimento veterinário,
é efetuado no Canil
Central da Polícia
Militar, onde o cão
aprende a utilizar seu
faro para a detecção de
explosivos e drogas.
Contudo, é no batalhão
que ele recebe os
comandos para atuar em
uma ocorrência de
resgate de vítimas em
escombros.
É um equívoco imaginar
que os cães passam por
exercícios rígidos e
dolorosos. “Para os
cães, o treinamento não
passa de uma atividade
lúdica, em que ele
procura um brinquedo e
espera pelo
reconhecimento do
comandante, por meio de
um simples agrado.
Assim, os cães são
motivados a utilizar o
seu instinto natural de
faro, sempre por
intermédio de
associações. É
importante ressaltar
que, quanto menor a
dependência do animal
com seu condutor,
melhores serão os
resultados”, informa o
cabo Lauro.
O
tempo de treinamento de
um exemplar, desde o
processo seletivo, dá-se
em média no período de
um ano e meio e passa
por três estágios. No
primeiro, o cão é
associado ao brinquedo e
em seguida o odor é
associado ao brinquedo.
No segundo estágio, o
cão passa a procurar o
odor em vez do brinquedo
e, por último, o odor é
associado à recompensa.
O
brinquedo em questão
trata-se de um objeto
específico para esse
tipo de adestramento. É
produzido com material
resistente e formato
especial para passagem
de ar e espaço para
acondicionar aromas.
Para que reconheça
odores inerentes ao ser
humano, os cães são
treinados com
substâncias que as
pessoas liberam durante
uma ocorrência, como
suor e adrenalina.
No Canil do Corpo de
Bombeiros do Ipiranga,
três equipes se revezam
no treinamento dos cães.
“Os exercícios são
contínuos. Simulamos
terrenos idênticos a
cenários de escombros e
desabamentos para
torná-los aptos a
desempenhar suas funções
também com barulho
intenso, poeira, lama,
buracos, fendas, água,
enfim, todas as
situações possíveis são
testadas”, complementa
cabo Lauro.
Ampliando as
possibilidades de
atuação dos cães
Os Cães de
Apoio a Ocorrências de
Salvamento, como são
denominados pela
corporação, são
considerados materiais
de carga, de propriedade
do Estado e ferramentas
do Corpo de Bombeiros, o
que não impede a relação
de afetividade existente
entre os oficiais e os
animais.
De
acordo com o cabo Lauro,
o cão ainda não é
utilizado em ocorrências
de incêndio,
propriamente ditas, em
razão das altas
temperaturas. No
entanto, é empregado na
busca de vítimas após o
rescaldo. “O nosso canil
é relativamente recente
e os nossos cães foram
treinados inicialmente
para escombros e
soterramentos, acidentes
comuns em casos de
incêndio.”
Ainda
segundo o oficial, o
comando da corporação
está se estruturando
também para efetuar o
treinamento dos cães
para casos de afogamento
e para o esclarecimento
de possíveis causas de
incêndios. “Não temos
ainda no País cães
preparados para essas
ocorrências”, lamenta.
A
maior vantagem da
utilização de cães pelo
Corpo de Bombeiros, de
acordo com o cabo Lauro,
é a resposta ágil que
eles oferecem: “Em
qualquer abalo de
estrutura, como
desabamentos, notamos
que a vítima muitas
vezes está por perto,
todavia, longe do campo
de visão do bombeiro. O
faro do cão, até por se
tratar do sentido que
garante a sua
sobrevivência, é capaz
de localizá-la
rapidamente, superando
os aparelhos que
utilizamos. Por isso
acreditamos que eles (os
cães) podem ser
extremamente úteis
também em outras
ocorrências”.
O papel dos cães
no resgate às vítimas do
atentado ao World Trade
Center
Em um posto
médico iluminado por
holofotes, quatro
médicos preparam um dos
trabalhadores de
emergência para o longo
dia que terão pela
frente. Envolvem suas
pernas em fitas adesivas
e encaixam botas novas.
Oferecem-lhe comida,
verificam seus olhos,
porque a fumaça e a
poeira podem embaçá-los
e queimá-los nas
próximas horas. Mas,
principalmente, beijam
seu focinho, esfregam
sua barriga e dizem
coisas como “Bom
trabalho, Porkchop”.
Por uma semana,
Porkchop, um Australian
Shepherd de 1 ano de
idade, tem feito buscas
no ferro retorcido que
um dia foi o World Trade
Center, em Nova York. No
seu tempo livre, come
formigas e assiste ao
canal TV Animal Planet.
Nos últimos dias, buscou
por sinais de vida ou
morte em meio às ruínas.
Ele não encontrou
sobreviventes.
Mas Porkchop descobriu
tantos restos humanos
que seu tratador, Erick
Robertson, disse que
perdeu a conta, no que
acredita ter sido o
maior destacamento de
cães da história,
aproximadamente 350 cães
especializados estiveram
no World Trade Center.
Porkchop, até a
conclusão da primeira
etapa dos trabalhos,
havia recolhido restos
humanos junto a cadeiras
e bolsas que ajudaram a
identificar quatro
pessoas. “A nossa missão
principal é tirar as
pessoas dali”, informou
na ocasião Michael Kidd,
um membro do Corpo de
Bombeiros de Miami. Seu
pastor alemão Mizu já
esteve em missões até
mesmo na Turquia. “O que
mais importa aqui é dar
às pessoas a certeza de
que tudo acabou.”
Até
pessoas mais afeitas a
gatos admiram o trabalho
dos cães heróis. Com
nomes como Dutch, Tuff,
Bigfoot, Sally, Max e
Cowboy, eles trabalharam
em turnos de 12 horas,
cavando túneis e
penetrando destroços
instáveis para caçar o
menor resquício de vivos
ou mortos. “Se vão ser
achadas pessoas vivas,
serão os cães a
encontrá-las”, afirmou
Barry Kellog, que
gerenciou a equipe de
Assistência Médica
Veterinária, setor do
serviço público de saúde
dos Estados Unidos
responsável pelos
animais que atuam em
desastres.
No
momento em que os
esforços estavam mais
concentrados na
recu-peração do que em
resgate, os “cães de
cadáveres”, assim
denominados e que foram
enviados até da Europa,
tiveram um papel
fundamental no
fornecimento de
respostas para milhares
de famílias dos
desaparecidos. Esses
cães têm anos de
treinamento com seus
tratadores, que
geralmente são membros
do Corpo de Bombeiros ou
paramédicos. Eles
precisam ser impassíveis
na frente de pessoas
gritando e de
equipamentos de
escavação, além de se
apresentarem fisicamente
capazes de se mover
através de pequenos
espaços e até mesmo de
subir em escadas de
bombeiros.
Apesar de muitos cães
policiais terem visitado
o local, os cães de
resgate tendem a ter um
treinamento mais
intensivo. Esses animais
precisam aprender
truques que são opostos
a seus instintos. Quando
um cão corre, ele
enterra suas unhas no
chão. Quando uma
superfície se move, o
cão tende a saltar. Para
tanto, eles aprendem a
caminhar com as patas
abertas, para não mover
o chão abaixo deles. Por
isso, muitos deles que
trabalharam nos
escombros do World Trade
Center não utilizaram as
botas especiais
disponibilizadas.
Segundo Shirley Hammond,
uma especialista em cães
de resgate de 67 anos,
de Palo Alto, na
Califórnia, os cães
passam por treinamentos
específicos para
situações de recuperação
e resgate. “Eles
aprendem a rastejar,
baixando seu centro de
gravidade, quando os
destroços se movem
abaixo deles.”Mas como
se ensina um cão a achar
restos humanos? Existem
produtos macabros, como
os “corpos falsos”, que
imitam o cheiro de carne
decomposta. Outros
treinadores usam corpos
e placentas doados pela
ciência. Com um olfato
várias vezes mais
apurado que o humano, os
cães podem sentir
cheiros através do
concreto dos destroços.
No
World Trade Center, os
cães trabalharam em
times e setores
diferentes dos
escombros. Engenheiros
estruturais investigavam
as áreas para determinar
se era seguro
explorá-las.
Especialistas em
materiais perigosos,
conhecidos como
“hazmat”, procuravam por
restos de combustível de
avião, diesel freon e
toner, para mencionar
alguns. Só depois vieram
os cães. Quando
encontravam algo, alguns
latiam, outros deitavam,
e então especialistas
verificavam o que fora
encontrado.
Atendimento
veterinário no local do
desastre
Para cuidar dos
cortes, dos danos em
razão da exposição a
produtos químicos e da
desidratação, o serviço
público de saúde
nova-iorquino enviou o
Serviço de Assistência
Médica Veterinária, ou
VMAT.
Trabalhando em turnos de
12 horas, homens,
mulheres e médicos
veterinários voluntários
formaram uma equipe que
se instalou no meio da
West Street, algumas
quadras ao norte do
World Trade Center. Uma
tenda de 20 metros
mantinha uma mesa com
seringas, aparelhos para
limpeza de ouvidos e
olhos, gavetas com gazes
e bandagens, além de
bolsas de soluções
intravenosas penduradas
em suportes, protetores
para patas e diver-
sos brinquedos, ossos e
biscoitos, quase o
suficiente para suprir
um pet shop.
Em
uma das noites de
trabalho nos escombros,
quando os veterinários
mudaram de turno, nenhum
cão apareceu por horas.
Então Cara, um Beauceron
de 2 anos, chegou. Ela
havia acabado de
penetrar em um espaço de
poucos centímetros com
uma câmera amarrada a
ela. O seu treinador
pediu que aparassem suas
unhas e limpassem seus
olhos. Os veterinários
perceberam, então, que
ela estava ligeiramente
desidratada e
recomendaram a ingestão
de bastante líquido,
assim que terminasse seu
turno. Ela retornou aos
destroços dez minutos
depois. Nas próximas
horas, apenas
voluntários empurrando
carrinhos passavam por
ali, oferecendo comida,
bandeiras e curativos
para os pés. Caminhões
de carga com luzes
estroboscópicas se
encaminhavam para o
local. Alguns minutos
depois das 2 horas da
manhã daquele sábado,
uma ambulância com uma
escolta policial enorme,
inclusive motocicletas,
se encaminhou para o
norte com os restos do
que um dia foi um
policial. Duas outras
caravanas similares
passariam ainda pelo
local.
Às 5
da manhã, o próximo
paciente chegou, um
Pastor Alemão que
trabalhava como cão de
patrulha para o
departamento de Polícia
de Nova York. Dwyer, com
as orelhas baixas,
estava com diarréia e
assustado, já que
acabara de ser mordido
por outro cão. Mitch
Biederman, um médico
voluntário, diagnosticou
estresse e outro
veterinário lhe deu um
remédio.
Às 6
horas houve outra
mudança de turno e os
cães começaram a chegar.
Primeiro foi Kinsey, uma
fêmea preta de Labrador
que sacudia mais o corpo
do que a cauda. O
veterinário mediu sua
temperatura, limpou-a e
ofertou-lhe um
brinquedo, que ela
agarrou prontamente,
enquanto o seu tratador
queixava-se do forte
cheiro de cadáver do
local.
Cholo, um Pastor Alemão,
foi o próximo. Como a
maioria dos cães
especializados, ele
pertence a uma equipe de
resgate do Texas. No
entanto, o animal busca
por sobreviventes, não
por cadáveres. Ele não
encontrou ninguém
durante o seu turno,
informou Bert Whiters, o
chefe de buscas.
Para evitar que os cães
fiquem tristes depois de
um dia de trabalho sem
resultados, alguns
tratadores se escondem e
deixam que os cães os
encontrem. No entanto, a
única coisa que
preocupava Cholo era o
banho que estava prestes
a tomar, com um regador
e um balde pendurados em
um tripé. Pelo seu
olhar, o banho parecia
uma ameaça. O último a
aparecer foi Thunder, um
Golden Retriever de 6
anos que é parte da
equipe de resgate de
Washington. Thunder
também foi examinado.
“Ele está tão estressado
que não pode mais ir aos
destroços”, disse seu
tratador, Kent Olson.
Depois que um banho o
livrou da poeira e da
graxa impregnada em sua
cabeça, Thunder rumou
para a área de descanso,
enquanto Porkchop, com
suas botas laranja,
voltava para os
destroços. Um
veterinário acariciou
então sua cabeça e
disse: “Que cães
maravilhosos”.
Pouquíssimos
sobreviventes foram
encontrados e os que
foram devem os méritos
aos cães. Assim como
muitas famílias tiveram
ao menos partes de seus
parentes para
dedicar-lhes um funeral
digno. Essa é mais uma
prova de que o cão é
realmente o melhor amigo
do homem, esteja ele
vivo ou morto.